Território Restrito

  ( Crossing Over, EUA, 2009)
Território Restrito
Território Restrito
Heitor Augusto

Babel é responsável por abrir a porteira de um jeito particular de contar uma história em um filme. Com o gancho da globalização e o clichê “o mundo todo está conectado”, Guillermo Arriaga dá um jeito de amarrar trajetórias que, a priori, nunca se cruzariam. Mas o método que funcionou com eficiência no longa de Alejandro Gonzáles Iñarritu não é garantia de que qualquer outro filme que se utilize dessa abordagem será hábil em contar uma história. Na pretensão de falar de várias pessoas, Território Restrito não fala de ninguém e de nada. Da maneira mais previsível possível, a primeira sequência do filme é um sobrevoo que leva a um centro de detenção de imigrantes com uma música de fundo. Som (trilha que indique suspense) e imagem (tomada aérea) que são sempre utilizados em filmes que misturam ação e contexto político, como fizera recentemente Ridley Scott em Rede de Mentiras . Esse sobrevoo despretensioso diz muito sobre o filme. Território Restrito apenas resvala na vida de seus personagens e em raros momentos parece realmente acreditar no que eles nos dizem. O argumento do filme, entrelaçar pessoas que estejam envolvidas com a imigração nos EUA, vira uma camisa de força que não deixa os personagens respirarem. O eixo é Max Brogan, um agente da imigração do tipo bom samaritano que tenta conciliar a função de prender ilegais com a vontade de salvá-los. Personagem com conflitos éticos tem tudo para ser rico em profundidade, certo? Errado. O roteiro de Wayne Kramer, que também assina a direção, não dá vazão alguma a esses conflitos e prende Brogan na forma “policial que contesta o que faz”. Por que ele virou agente da imigração? Defende os ilegais porque tem uma preferência, por inércia, pelas minorias? Ou é resultado de consciência política? Estas e outras questões vão para o ralo e nem são sequer insinuadas. O espectador tem acesso à casca de Max, ao seu estereótipo. Continuando a lista de superficialidades, cada personagem representa uma faceta da política externa norte-americana: uma família palestina (povo em constante disputa com Israel, aliado histórico dos EUA); um jovem judeu hype e uma garota australiana desmiolada; uma família chinesa (maior país detentor da dívida norte-americana); um iraniano (que por acaso é parceiro do agente Brogan); e, como grand finale , uma mexicana (“tão longe de Deus, tão perto dos EUA”). Aliás, a mexicana é interpretada pela brasileira Alice Braga, em um sotaque castellano para lá de tabajara. Sua personagem aparece em apenas três cenas, mas é responsável por amarrar o filme ao ser presa pelo agente Brogan. Onde foi parar a atriz pulsante de Cidade Baixa ? Se perdeu pelo caminho entre a baixa Salvador e a Los Angeles de Território Restrito ? Território Restrito é mais um exemplo da dificuldade em transformar a pretensão de conectar vários universos em uma história bem contada. Ou de trazer com habilidade elementos dos filmes de ação para assuntos políticos, como fizera Syriana – A Indústria do Petróleo ou O Jardineiro Fiel . Como Wayne Kramer não tem o roteiro de Stephen Gaghan ou Arriaga e sequer a versatilidade de Fernando Meirelles, Território Restrito é um exercício de esforço para o espectadorem procurar sequências decentes no filme.


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