 |
|
Amantes |
Amantes
Sérgio Alpendre
O cinema de James Gray é focado na Nova York dos imigrantes, das famílias tradicionais de classe média, nas relações entre excluídos e pessoas certinhas - além daqueles que estão excluídos, mas querem se endireitar, seguir as normas da sociedade. É daí que ele tira o embate que permeia sua obra, desde Little Odessa até Os Donos da Noite , passando pelo pouco notado Caminho Sem Volta . Quando contava histórias de pequenos gangsters, era mais fácil perceber que a disjunção entre os laços familiares e a liberdade individual operava em uma camada mais sutil, escondida sob camadas mais físicas, mais terrenas. Agora, ao filmar a jornada de um homem desiludido cuja única maneira de seguir um caminho em sua vida é se desvencilhando das teias familiares, tudo está em nossa cara: James Gray filma o embate entre o que é arraigado e o que precisa ser destruido, entre o compromisso e o voo livre, entre a porralouquice e o cerco do que é comum. Leonard, personagem de Joaquin Phoenix em Amantes , é o mais desajustado entre os desajustados de Gray. O que mais tem dificuldades em se libertar da rede doméstica, apesar de ser o que mais visivelmente se incomoda com ela. Enquanto ele não romper os laços com seus pais, com quem divide um apartamento, não saberá exercer sua individualidade. Não é uma pessoa comum, mas um homem sensível, que se abate muito facilmente, e por isso ao mesmo tempo que precisa do conforto familiar, o repele, pois sente que essa dependência é castradora. Ele se apaixona pela vizinha, interpretada por Gwyneth Paltrow ( Homem de Ferro ), que tem um amante casado. Mas sua família aprova as investidas da filha (Vinessa Shaw, de Os Indomáveis ) de um negociante que pode melhorar a situação econômica de todos. A rede na qual está enrolado é difícil de se desvencilhar, ainda mais com a insegurança tremenda que ele sente. Em linhas gerais, não existe muito mais o que dizer do filme. Não há grandes reviravoltas, o roteiro não foi escrito por nenhum pretenso gênio, não há grandes movimentos de câmera, e ainda é esteticamente comportado. Ao mesmo tempo, não há como negar sua pungência, a dor dos momentos mais líricos, a força do olhar dos atores, especialmente de Joaquim Phoenix (ator que já havia trabalhado com Gray nos dois filmes anteriores do diretor, aqui no papel de sua vida) e Vinessa Shaw. Captar esses olhares pode até parecer fácil para um espectador comum. Mas você não os vê em mais do que cinco ou seis filmes por ano, sendo otimista. É algo que só pode ser almejado por alguém que pretende, primeiramente, tocar nossas emoções, sem se fazer de esperto, sem estar na moda, sem preocupação alguma com tendências como o dogma ou do cinema independente americano, que emula Godard ou Cassavetes, mas mostra, geralmente, que deles não aprendeu nada. Amantes narra o embate entre a conformidade e a rebeldia, assim como deixa entrever um embate entre o cinema clássico e o moderno. O clássico vence no final, obviamente. O espectador irá saber quem será o vencedor do outro embate, em uma das cenas finais mais tocantes em muito tempo.