O Corte

  ( Le Couperet, Bélgica/ França/ Espanha, 2005)
O Corte
O Corte
Angélica Bito

Se você acha que o desespero por conta do desemprego, especialmente entre profissionais altamente qualificados, é um problema típico somente da sociedade brasileira, pense duas vezes. E assista a O Corte , novo drama de humor negro dirigido por Costa-Gavras. Bruno Davert (José Garcia) é um competente engenheiro que trabalhou durante 15 anos numa fábrica de papel. Por conta de reestruturação na companhia, ele é demitido. O que no começo parece ser férias merecidas acaba se tornando um verdadeiro tormento. Dois anos depois, ele não teve sucesso em nenhuma de suas entrevistas de emprego. A família está sendo sustentada pela esposa, Marlène (Karin Viard), que mantém dois pequenos empregos. No auge do desespero, Bruno traça um plano realmente macabro e diabólico para conseguir o emprego dos seus sonhos. Plano digno de um filme de Alfred Hitchcock. Primeiramente, ele anuncia um emprego fictício no jornal. Os melhores candidatos à vaga são, automaticamente, seus concorrentes numa vaga semelhante. Assim, Bruno chega à conclusão que, se matá-los, a concorrência será eliminada e o emprego dos sonhos será seu. À beira da loucura total, ele sai à procura dos candidatos a fim de eliminá-los, sempre seguindo o preceito mais famoso do filosofo Maquiavel: os fins justificam os meios. Assim como na mente do protagonista, não existe moral em O Corte . Por conta da abordagem sempre ácida e irônica do roteiro, não importa se o protagonista consegue ou não se safar dessa situação. Inclusive, é plausível torcer por ele. Sim, o filme consegue envolver o espectador de tal forma que é impossível odiar o protagonista, por mais desprezível que ele seja. Sim, sabemos que ele está errado, mas é por isso que deve se dar mal? Essa “filosofia” maniqueísta não existe na produção. A falta de ética é seu grande trunfo. Costa-Gavras utiliza-se muito bem do humor negro para abordar temas como a concorrência no mundo corporativo, o próprio desemprego e a crise econômica na França. O plano do protagonista pode parecer absurdo, mas é muito bem contextualizado. Ao mesmo tempo em que o espectador é capaz de se sentir comovido pelo drama passado por Bruno, não dá para levar a sério. É aí que cabe muito bem o humor negro. De uma forma irônica, o cineasta grego – conhecido por sempre abordar temas sociais sérios em soas obras – toca no desemprego com elegância, fazendo uma fina crítica à competição no mundo corporativo.


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