Piaf - Um Hino ao Amor

  ( La Môme/la Vie En Rose, França/ Reino Unido/ República Tcheca, 2007)
Piaf - Um Hino ao Amor
Piaf - Um Hino ao Amor
Celso Sabadin

Prepare seus lenços. É praticamente impossível não derramar pelo menos algumas lágrimas durante os 140 minutos de projeção de Piaf - Um Hino ao Amor , a festejada cinebiografia da cantora francesa Edith Piaf. O drama já levou mais de cinco milhões de franceses aos cinemas de seu país, além de faturar US$ 10 milhões nos EUA, mercado que costumeiramente foge de filmes legendados como George Bush da cruz. O sucesso é coerente. Co-produzido por França, Inglaterra e República Checa, Piaf - Um Hino ao Amor é rasgadamente emotivo e emocional, atingindo em cheio o grande público, da mesma forma emotiva e emocional que a própria cantora tinha de conquistar as suas platéias. E importante: sem cair no piegas. O roteiro da estreante Isabelle Sobelman, em parceria com Olivier Dahan – este também diretor do filme –, opta por uma narrativa que une equilibradamente fatores conservadores com alguns elementos mais arrojados. Se, por um lado, Piaf - Um Hino ao Amor se aproxima, estruturalmente, a outras grandes cinebiografias clássicas de músicos e cantores famosos, como Ray ou Amadeus , por exemplo, por outro lado é bem-vinda a montagem não-cronológica, que joga eficientemente com a linha do tempo da personagem, ao mesmo tempo em que exige do público uma atenção – e um conseqüente envolvimento – mais próximo. Nos quesitos técnicos, Piaf - Um Hino ao Amor é irrepreensível. A fotografia escura e sombria de Testsuo Nagata, aliada à impecável reconstituição de época (no caso, de épocas, já que o filme transita em várias décadas), dão à produção ares de luxo e imponência, ao mesmo tempo em que criam uma aura de autenticidade, fundamental para que o público entre de cabeça na história da cantora, “comprando” o que vê na tela como a mais pura realidade. A sempre difícil maquiagem de envelhecimento beira a perfeição em Piaf - Um Hino ao Amor e a trilha sonora tem o grande mérito de não ser óbvia, utilizando as mais famosas canções de Piaf de forma comedida e precisamente colocada dentro de cada cena, sem os exageros que são quase sempre inevitáveis no caso do biografado estar ligado ao mundo da música. Ambicioso, Piaf - Um Hino ao Amor ousa retratar a vida da estrela por inteiro. A partir de seus primeiros e extremamente pobres anos de vida, passando por suas perambulações por cabarés e prostíbulos, a descoberta do talento natural, a lapidação deste talento, o sucesso, a ida aos Estados Unidos (numa Nova York totalmente feita em estúdio), os amores, até chegar à sua doença, que a atormentou e consumiu ainda bastante jovem. Deixamos, porém, o melhor para o final: a interpretação da atriz parisiense Marion Cotillard no papel-título. De coadjuvante quase imperceptível em filmes como Um Bom Ano (com Russell Crowe), Peixe Grande e suas Histórias Maravilhosas ou na trilogia Táxi , Marion se agiganta como Piaf, estoura na tela grande, dá alma ao personagem e se transforma de maneira impressionante a cada fase diferente de sua vida. Certamente receberá vários prêmios importantes durante a carreira do filme, que estreou em fevereiro deste ano na França e, conseqüentemente, concorrerá ao César (e talvez até ao Oscar) de 2008. Uma última informação: cinematograficamente, Piaf - Um Hino ao Amor apresenta pelo menos uma cena que já pode ser considerada antológica. Para quem não viu o filme, convém não contar para não estragar o momento, mas vale dizer que é um instante magnífico, no qual a personagem principal recebe uma notícia terrível e, no mesmo plano, exorciza a tristeza por meio de uma música composta a partir de uma carta de amor que ela própria escreveu. Só vendo.


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