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Batman - O Cavaleiro das Trevas |
Batman - O Cavaleiro das Trevas
Sérgio Alpendre
Sempre que o cinema se mete a adaptar um herói criado nos quadrinhos a resistência de fãs xiitas é intensa, assim como uma fiscalização excessiva das mudanças na transposição para outra linguagem. Sejamos claros. O cinema não deve ser obrigado a manter um nível de fidelidade de modo a não decepcionar os fãs do material original. Às vezes, é necessária até mesmo uma traição desse material para ser mais fiel a uma intenção mais ampla, que corrobore com a visão do diretor sobre o personagem, fidedigna ou não às idéias do criador. Por isso, não é justo que a cada filme com Batman pipoquem na internet especialistas julgando onde e como o filme pecou, como ele foi fiel à história original, ou em que seqüências o mundo que se conhecia dos quadrinhos desabou diante de uma nova informação visual. Batman – O Cavaleiro das Trevas tem material farto para detratores e entusiastas deitarem e rolarem, pois se abre a especulações e reclamações de todos os tipos, assim como carrega, talvez de maneira muito mais sutil do que queriam os fãs, o germe de tudo que fará a ruína pessoal de Bruce Wayne, escondido para sempre por trás do herói. Ou seja, mesmo quando trai as histórias contadas nos quadrinhos, é fiel à idéia do herói das cavernas, um sombrio defensor do bem que é e sempre será culpabilizado pelos dois lados da moeda: carrega a culpa pela escalada de violência, mas também incomoda os corruptos que transformam Gothan City em uma cidade à beira do inabitável. Este novo filme, então, mostra, mais ainda do que Batman Begins , a gênese da ida à escuridão pelo homem-morcego, condenado a ajudar o bem sem receber o devido crédito, a viver nas entranhas da lei sem receber dela qualquer amparo. Um herói maldito, romântico e trágico. Estamos, ainda, num período anterior ao mostrado naqueles quatro filmes anteriores à entrega do bastão para Christopher Nolan ( O Grande Truque ), diretor encarregado de compor um herói mais humano, mais próximo do homem real. Vemos um herói ainda tateante sobre sua condição, receoso de viver a vida inteira em função da defesa de sua cidade - a brutal Gothan City, dominada pelo crime organizado. Dos seis longas-metragens produzidos dentro da franquia da DC Comics com a Warner , coube a cada um dos três diretores contratados, a assinatura de dois episódios. Os dois primeiros foram dirigidos por Tim Burton ( Sweeney Todd – O Barbeiro Demoníaco da Rua Fleet ), com Michael Keaton ( Fábrica de Loucuras ) por baixo da armadura e da máscara. Burton submeteu o mundo de Batman ao seu próprio mundo, resvalando, muitas vezes, em uma superdose incômoda, um exagero de elementos sombrios que sufoca o estilo gótico do diretor. Foi o melhor cineasta a trabalhar com o material porque era dotado de um senso visual espetacular dentro de suas características soturnas, mas não era o mais indicado, o que se tornou claro em Batman (1989) e Batman – O Retorno (1992). Os dois projetos seguintes foram entregues a Joel Schumacher ( Número 23 ). Batman Eternamente (1995) e Batman e Robin (1997) são exemplares carnavalescos que provocaram a ira dos fãs. Alguns cinéfilos aprovaram, mas a verdade é que a visão de cinema de Schumacher é pobre demais, e de nada adiantou ter dois atores melhores que Keaton vivendo o herói. Val Kilmer ( Beijos e Tiros ), no primeiro e George Clooney ( Conduta de Risco ), no segundo, não possuíam a dimensão trágica inerente ao personagem, que não consegue ser construída pela diluição de Schumacher. Chegamos, então, com Batman Begins (2005), à conjunção que se mostrou ideal. Christian Bale ( Novo Mundo ) evoluiu muito como ator. Não é mais o menino ridiculamente mimado de Império do Sol , nem o careteiro perdido de Velvet Goldmine . Bale, pode-se dizer, construiu um novo personagem, impregnou-o de um espírito de revolta, de um senso moral que faz do herói algo muito maior, amplificado e tornado um exemplo para o mundo, uma esperança de novos tempos. Christopher Nolan foi o diretor que anulou qualquer traço de autoria que se podia notar em seu trabalho anterior (especialmente em Following e Amnésia ), para levar a franquia – que se encontrava em meio à desesperança, graças aos dois fiascos de Schumacher – a um patamar mais clássico, com uma história a ser contada da maneira mais direta possível, sem maneirismos e abrindo mão dos cacoetes de autor. Essa disposição de se despir do estilo deu ao herói uma dimensão que até então ele não tinha conseguido alcançar no cinema. Como o personagem é extremamente marcante, a maneira mais eficaz de captar toda sua grandeza é narrar a história de forma direta, criar uma noção de mundo semelhante à que estamos acostumados a ver e sentir, e inserir os elementos extraordinários naturalmente, tomando o devido cuidado para que a construção da narrativa não se abale e transforme o que vemos na tela em um mundo não factível com o que concebemos. Como a quantidade de informação contida neste novo filme é bem grande, existem momentos em que ficamos muito próximos de perder contato com essa realidade e, por conseqüência, perder empatia com o herói. Não ajuda que o diretor seja pouco hábil nas cenas de ação, que felizmente não são em grande número, ao menos se comparado a outros blockbusters atuais, mas são mal coreografadas o suficiente para que se tornem um pequeno problema para as ambições da produção. Felizmente, Nolan consegue controlar esses perigos, e sempre que seu filme ameaça descarrilar ele o contém com mão firme, e com a ajuda de um roteiro muito bem costurado por ele e seu irmão Jonathan Nolan, em cima da história criada em conjunto com o escudeiro fiel David S. Goyer. O apego a um relato bem construído faz com que os riscos sejam diminuídos, mesmo quando se ousa mais, como neste segundo trabalho de Nolan com o herói. Curiosamente, Batman - O Cavaleiro das Trevas é o filme mais diurno de toda a franquia. Algumas das cenas mais importantes para o desenrolar da trama acontecem durante o dia, sob raios de sol. O contraste com a situação final provocada pelo maior vilão vivido com intensidade por Heath Ledger ( O Segredo de Brokeback Mountain ), faz com que sua descida ao inferno seja ainda mais sensível, e nos prepara para o mundo sombrio que nos aguarda num terceiro episódio com a dupla Nolan/Bale. Falando no vilão, o Coringa, é necessário dizer que a criação de Ledger supera a de Jack Nicholson ( Antes de Partir ) no primeiro longa-metragem, o de 1989, e se confirma como o grande vilão enfrentado pelo herói no cinema, superior até que o Pingüim imortalizado por Danny DeVito ( Irmãos Gêmeos ) em Batman Returns . Não seria exagero dizer que a concepção de Ledger faz com que o Coringa já se insira entre os grandes vilões de toda a história do cinema. Suas motivações e seus rompantes de sarcasmo o transformam num ser que provoca, nem que seja por míseros e inconscientes segundos, um pouco de simpatia do espectador. É um grande mérito desse ator espetacular, que nos deixou justamente após nos entregar sua melhor representação nas telas. Os coadjuvantes também estão ótimos. Gary Oldman ( Harry Potter e a Ordem da Fênix ) tem seu melhor desempenho em muitos anos como o comissário Gordon; Aaron Eckhart ( Dália Negra ) está soberbo como o promotor humanista Harvey Dent; Maggie Gyllenhaal ( Secretária ) faz com que esqueçamos a performance de Katie Holmes ( Loucas por Amor, Viciadas em Dinheiro ) como a Rachel Dawes de Batman Begins , e Michael Caine ( Filhos da Esperança ) e Morgan Freeman ( Antes de Partir ) estão ainda mais à vontade como os dois braços direitos de Bruce Wayne, as consciências do homem por trás do herói, os conselheiros mais diretos de suas mais profundas decisões. Por todos esses acertos, e pela habilidade em contornar os eventuais problemas, Batman – O Cavaleiro das Trevas confirma Christopher Nolan ( O Grande Truque ) como o mais bem-sucedido recriador do personagem do herói mascarado no cinema.