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Na Mira do Chefe |
Na Mira do Chefe
Celso Sabadin
Que belíssima estréia! Aos 38 anos, o inglês Martin McDonagh escreve e dirige o seu primeiro longa-metragem demonstrando um raro talento: equilibrar com harmonia o drama e a comédia. Delicioso, Na Mira do Chefe começa mostrando os matadores profissionais Ray (Colin Farrell) e Ken (Brendan Gleeson) fugindo para a belíssima cidade belga de Bruges. Ambos precisam ficar por ali à espera de um telefonema do patrão, que passará novas instruções aos assassinos. Enquanto isso, a dupla não consegue se entender: Ken se delicia com o valor histórico e a arquitetura gótica de Bruges, mas Ray só se interessa mesmo por cerveja e mulheres. Na Mira do Chefe é cheio de surpresas. Todas elas muito boas. Melhor ainda que a inteligente construção do roteiro é a precisão e o ritmo dos diálogos – extremamente cínicos e divertidos – a maioria deles otimamente interpretada por um eficientíssimo Colin Farrell. Usando o submundo do crime como pano de fundo, Na Mira do Chefe se apóia no humor sarcástico e em situações inesperadas para abordar temas como culpa, honra, amizade, fidelidade e ética. De quebra, deixa bem clara a bronca que o europeu tem contra os EUA e seus habitantes. Além de uma cena hilariante e politicamente incorreta contra uma família de obesos norte-americanos, o filme destila algumas preciosidades cínicas como esta: - Você é americano? - Sim, mas não use isso contra mim. - Vou tentar. Há também uma série de trocadilhos e mal-entendidos provocados por diferentes sotaques que são intraduzíveis para o português. Na Mira do Chefe une com maestria criminalidade, drama e humor, mas sem cair na (também muito boa) fórmula gráfica desenvolvida por Guy Ritchie em Jogos, Trapaças e Dois Canos Fumegantes e similares. O filme tampouco segue a linha Tarantinesca de estilização gratuita da violência. Sua força está nas palavras e nas interpretações, ainda que não descuide em nenhum momento do belo visual, amparado pela beleza plástica da cidade onde foi totalmente rodado. É um legítimo representante do saboroso e mundialmente conhecido humor britânico, que andava meio esquecido nos cinemas. Com sórdidas pitadas de humor negro. Ah, e alguém contou: em 107 minutos de filme, a palavra fuck e suas variações são pronunciadas 126 vezes.