9 - A Salvação

  ( 9, EUA, 2009)
9 - A Salvação
9 - A Salvação
Ana Martinelli

Em 2004, Shane Acker fez um curta-metragem chamado 9 estudante da UCLA (Universidade da Califórnia, Los Angeles), na qual formou-se em Arquitetura & Urbanismo e Animação. Além de vários prêmios em festivais universitários, o curta foi exibido no Festival de Sundance de 2005, a grande vitrine dos filmes independentes, e indicado ao Oscar de Melhor Curta-Metragem em 2006. Num futuro pós-apocalíptico e sem seres humanos, número 9 é um boneco de pano que ganha vida. De personalidade curiosa e destemida, ele vaga por destroços da civilização que desconhece. Sem saber suas motivações, seguimos sua trajetória e descobertas neste lugar inóspito numa narrativa sem palavras, com belíssimo design de som. Ao encontrar 5, descobrimos que há outros, mas não os conhecemos. Ficamos apreensivos com a revelação de um monstro gigante de metal que os persegue e muito instigados em saber o porquê a intensa luz verde que pisca é tão importante para o desfecho. Os pouco mais de dez minutos sem diálogos deixam no espectador uma sensação de devastação. A intensidade da trama e a construção narrativa do curta de Shane Acker despertaram grande interesse, e a proposta de adaptar o pequeno 9 em um longa-metragem surgiu de um dos mais cultuados animadores e diretores da atualidade, Tim Burton ( Sweeney Todd: O Barbeiro Demoníaco da Rua Fleet ) e de Timur Bekmambetov ( O Procurado ) que assinam a produção de 9 – A Salvação . Toda esta explicação para dizer que a expectativa em relação ao projeto foi grande. E colaborou para aumentar ainda mais a entrada de nomes de peso da animação e elenco de vozes estrelar - 9 é dubaldo por Elijah Wood (o Frodo da trilogia O Senhor dos Anéis ), número 1 por Christopher Plummer ( Um Amor Para Toda a Vida ), número 7 por Jennifer Connelly ( Ele Não Está Tão A Fim de Você ), para citar alguns. O orçamento foi de US$ 30 milhões, significativo para o primeiro longa do diretor. Um dos aspectos que mais salta aos olhos que deve agradar aos fãs de animação e, pessoalmente, foi um grande deleite, é o aprimoramento visual dos cenários e dos bonecos em 9 – A Salvação , muito mais complexos e detalhados. A visão estética proposta por Acker no curta é mantida, mas cresce com a experiência e, sem dúvida, com a influência do universo dark de Tim Burton. Um casamento feliz e bem-vindo. A trama estendida mantém a essência dos acontecimentos de 9 , mas revela mais daquele mundo, como o misterioso procedimento de dar vida a bonecos de pano. Pelos passos e olhos do pequenino 9 é divertido e tenso acompanhar suas descobertas do mundo ao redor. As novas situações desvelam aos poucos quem são os outros oito bonecos, suas características e personalidades, os conflitos da história e seu maior desafio, derrotar A Grande Máquina. Há ótimos momentos de ação e também singelos, como o grupo se divertindo ao som de Somewhere Over the Rainbow , interpretada por Judy Garland numa citação ao O Mágico de Oz . A bela cena é um claro indício de que depois da tempestade vem a calmaria... e que o que vem pela frente é mais tempestade. O roteiro de Pamela Pletter (corroteirista de A Noiva-Cadáver ) e a direção escorrega lá pela metade do filme. A tensão dos conflitos perde força nos diálogos fracos, muito explicativos e no tom politicamente correto demais. A conseqüência mais imediata é a sensação de que o filme está se perdendo dentro dele mesmo. Infantiliza-se (o sentido aqui é de ficar bobo, sem qualquer demérito às crianças que são muito mais espertas do que nós) ao tentar explicar em palavras um lugar onde o espectador poderia chegar sozinho sensorialmente. Ao optar pelo “caminho mais fácil” para resolver o roteiro, chega-se num final já esperando. De início, não se estabelece uma relação óbvia com Wall-E (2008), mas pode-se dizer que 9 – A Salvação propõe, consciente ou inconscientemente, algumas reflexões parecidas sobre o rumo da humanidade apresentadas no filme do robozinho da Pixar. Nada contra, mas com a proximidade de uma produção da outra fica patente a falta de uma certa ousadia ou a sensação de “eu já vi isso antes”, que me incomodou.


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